sexta-feira, 17 de julho de 2015

Tradição e democracia

" Nunca pude entender onde os homens foram buscar a ideia de que a democracia se opõe, de certo modo, à tradição. É evidente que a tradição é somente a democracia projetada através dos tempos. É acreditar no consenso de vozes humanas, em vez de acreditar em qualquer documento arbitrário ou isolado. O homem que cita um historiador alemão em oposição à tradição da Igreja Católica, por exemplo, está apelando implicitamente para a aristocracia, pois apela para a superioridade de um perito contra a extraordinária autoridade de uma multidão. [...] A tradição pode ser definida como uma extensão do direito de voto, pois significa, apenas, que concedemos o voto às mais obscuras de todas as classes, ou seja, a do nossos antepassados. É a democracia dos mortos. A tradição se recusa a submeter-se à pequena e arrogante oligarquia daqueles que parecem estar por aí meramente de passagem. Todos os democratas protestam contra o fato de o nascimento estabelecer diferenças entre os homens, a tradição opõe-se a que tais diferenças sejam estabelecidas em razão de sua morte."

G. K. Chesterton, Ortodoxia
 

Loucura e razão

  " Todos aqueles que têm tido a infelicidade de lidar com criaturas completamente doidas, ou que estão no estágio inicial da doença mental, sabem que uma de suas características mais sinistras é a espantosa clareza nos pormenores: as coisas ligam-se umas às outras em um plano mais intrincado que um labirinto. Se você discutir com um doido, muito provavelmente levará a pior, pois a mente do alienado, em muitos sentidos, move-se muito mais rapidamente porque não se detém em coisas que preocupam apenas quem tem bom raciocínio. O louco não se preocupa com o que diz respeito ao temperamento, à caridade ou à certeza cega da experiência. A perda de certas afecções sãs tornou-o mais lógico. A maneira como se encara, vulgarmente, a loucura é errônea: o louco não é o homem que perdeu a razão, mas o homem que perdeu tudo, menos a razão.
   A explicação que um doido dá a respeito de qualquer coisa é sempre completa e, por vezes, satisfatória, num sentido puramente racional. Falando mais rigorosamente, podemos afirmar que qualquer explicação dada por um louco se não é conclusiva é, pelo menos, irrespondível. E isso poderá ser verificado, principalmente, em duas ou três das espécies de loucura mais comuns. Se um homem está convencido de que é vítima de uma conspiração, não podemos discutir com ele, dizendo-lhe que todos os outros homens negam ser conspiradores, pois isso seria exatamente o que os próprios conspiradores fariam. Sua explicação abrange os fatos, tanto quanto a nossa. Se um homem afirmar que é o legítimo rei da Inglaterra, não será resposta bastante dizer que as autoridades existentes chamam-no de doido, porque se ele fosse, de fato, o rei da Inglaterra, essa talvez fosse a coisa mais acertada que todos diriam. E se um maníaco estiver convencido de que é Jesus Cristo, também não será resposta dizer-lhe que o mundo nega sua divindade, visto que o mundo negou a de Cristo. "

G. K. Chesterton, Ortodoxia

sábado, 11 de abril de 2015

Sombra

Os primeiros frutos
o vale da sombra da morte
esquece

brilha a rocha

por que, por que não cravas essa cruz

em mim?

Estrangeiro

A manhã me acaricia
sussurra
estrangeiro nesse mundo
em procissão: amada e invisível

legião de escravos.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Ipê

Flores do Ipê amarelo
descansam no caminho nublado
como entre mares as seduções de Calipso

Lembram
havia aurora
clemente destino

Agora
uma manhã sombreia a alma

Mas ela insiste

cicatrizes revivem o doce chorar.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Sobre o cientificismo como modo de filosofia universal

[...] Ninguém pode duvidar seriamente das provas científicas dos processos microevolutivos. A questão que um crente levanta frente à razão moderna não faz referência a esse assunto, nem ao da macroevolução, e sim à expansão para uma philosophia universalis que pretende se transformar em uma explicação global do real e não gostaria de deixar de lado nenhum outro nível do pensamento.
    Trata-se, enfim, de a razão ou o racional estarem ou não no princípio de todas as coisas e em seu fundamento. Trata-se de saber se o real surgiu do acaso e da necessidade, ou seja, do irracional; se, portanto, a razão é um subproduto casual do irracional e carece também de importância no oceano do irracional, ou se continua sendo certa ideia que constitui a convicção fundamental da fé cristã e sua filosofia: in principio erat verbum, no princípio de todas as coisas está a força criadora da razão. A fé cristã é, hoje como ontem, a opção da prioridade da razão e do racional. Esta questão última não pode mais ser resolvida mediante os argumentos das ciências naturais, e também o pensamento filosófico se choca aqui com seus limites. Neste sentido, não existe uma possibilidade última de demonstrar a opção cristã fundamental. Mas pode a razão renunciar à prioridade do racional sobre o irracional, à existência original do logos sem abolir a si mesma? A razão não pode fazer outra coisa a não ser pensar também sobre o irracional a seu modo, isto é, de modo racional, estabelecendo, assim, implicitamente de novo a questionada primazia da razão. Por sua opção em favor da primazia da razão, o cristianismo continua sendo, também hoje, "racionalismo".

RATZINGER, J.; D'ARCAIS, P. F. "Deus existe?". São Paulo: Planeta, 2009, p. 20.

O cristianismo e a pretensão da verdade: algumas palavras de Ratzinger

[...] o cristianismo tem seus percursores e sua preparação interna no racionalismo filosófico, não nas religiões. Segundo Agostinho e a tradição bíblica, para ele decisiva, o cristianismo não se baseia nas imagens e ideias míticas, cuja justificação se encontra, afinal, em sua utilidade política, mas faz referência a esse aspecto divino que a análise racional da realidade pode perceber. Em outras palavras: Agostinho identifica o monoteísmo bíblico com as ideias filosóficas sobre o fundamento do mundo formadas em suas diversas variantes na filosofia antiga. A isso se faz referência quando, desde o sermão do Areópago de Paulo, o cristianismo se apresenta com o propósito de ser a religio vera. Assim, pois, a fé cristã não se baseia na poesia nem na política, essas duas grandes fontes da religião; baseia-se no conhecimento. Venera esse Ser que é o fundamento de tudo o que existe, o "Deus verdadeiro". No cristianismo, o racionalismo se tornou religião e não é mais seu adversário.
     Partindo dessa premissa, como o cristianismo foi entendido como um triunfo da desmitologização, como um triunfo do conhecimento e, com isso, da verdade, devia ser considerado universal e lavado a todos os povos; não como uma religião específica que ocupa o lugar de outras, não como uma espécie de imperialismo religioso, mas como verdade que torna a aparência supérflua. E justamente por isso, na ampla tolerância dos politeísmos, deve ser considerado incompatível, até mesmo inimigo da religião, "ateísmo": não se limitou à relatividade e à possibilidade de intercâmbio da imagens, com o que perturbava principalmente a utilidade política das religiões e punha em perigo os fundamentos do Estado, em cujo âmbito pretendeu ser não uma religião entre outras religiões, mas sim o triunfo do conhecimento sobre o mundo das religiões.
     Por outro lado, essa localização do cristão no cosmos da religião e da filosofia está relacionada, também, com o poder de penetração d cristianismo. Já antes do surgimento da missão cristã nos círculos eruditos da Antiguidade, havia-se buscado na figura do "homem temeroso a Deus" a conexão com a fé judaica, que foi considerada a forma religiosa do monoteísmo filosófico e atendia ao mesmo tempo às exigências da razão e à necessidade religiosa do homem que a filosofia não podia atender por si só: não se reza a um deus que só existe no pensamento. Mas quando o deus que o pensamento descobre se encontra no interior de uma religião como deus que fala e age, então conciliam-se pensamento e fé.[...]
     [...] O racionalismo pode se transformar em religião porque o mesmo Deus do racionalismo entrou na religião. O elemento que realmente exige fé, a palavra histórica de Deus, é a condição prévia para que a religião possa se voltar, por fim, para o Deus filosófico, que já não é um mero Deus filosófico e que não rejeita o conhecimento filosófico, mas que o assume. E aqui se evidencia um fato surpreendente: os dois princípios fundamentais, aparentemente contraditórios, condicionam-se mutuamente e andam unidos; juntos configuram a apologia do cristianismo como religio vera.

RATZINGER, J.; D'ARCAIS, P. F. "Deus existe?". São Paulo: Planeta, 2009, p.13-16.